domingo, novembro 06, 2005

A Negra

A Negra reuniu a família, depois de anos de isolamento. Todos se encontraram no velho bairro, velando o corpo de uma das quatro matriarcas. As outras três estavam presentes, assim como os filhos e os netos. Muito choro e emoção das mulheres; os homens conversavam sobre futebol, fugindo de quando em quando para abraçarem as esposas desconsoladas.

Os jovens primos lembravam as velhas histórias, as piadas, as brincadeiras. Cada um estava mais impressionado do que o outro. Nossa, primo, você cresceu bastante. Prima, com quantos anos você está? Lembra de quando andávamos de bicicleta em bando?

A Negra tocou a matriarca com sua eficiência e surpresa habituais. Nos olhos das filhas e dos netos, ficava a saudade adiantada da próxima matriarca. A morte da primeira lembrava inevitavelmente a finitude das outras três. O velório era para todos. Até mesmo os primos, do alto de suas risadas, comentavam tristemente do que poderia vir a seguir.

A matriarca mais velha já não era mais. O que tinha saído dela, afinal, quando a Negra a tocara? Por que os vermes não comiam o corpo antes da morte? Ou comiam? O que fazia daquela carne algo vivo? Aquele monte de imagens não era mais a matriarca. Nem poderia ser. Como alguém pode chamar carne de mãe? Onde estava, naquele monte, feito pedra, a mãe?

Ninguém sabe responder. A Negra nem mesmo existe. É um eufemismo para o maior desconhecido. Alguma coisa simplesmente acontece.

A prima mais nova estava maravilhada. Sem entender muito, apenas brindava, sorria feliz, aquela reunião de todas as pessoas que ela mais gostava na vida.

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