segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Um dia na vida de uma perda

Uma perda acorda cedo, meio que chorando pelo dia anterior. Não chora por ter perdido algo, mas por ter sido perdida, por ter feito perder. Gostaria, do fundo do coração, que o relógio do mundo batesse sempre a favor do encontro, para que todos fossem encontrando uns aos outros e a si mesmo mais e mais e cada vez encontrando mais vida, mais amores, mais tudo. O relógio do mundo, no entanto, bate em seu favor, porque depois do encontro vem sempre a perda.

A perda volta a dormir e acorda na hora do almoço. E quem perdeu se pergunta quantas vezes se pode perder a mesma coisa. A perda não sabe que toda vez que acorda se faz presente novamente. A perda, quem diria, se deixa encontrar, inconscientemente. Almoça com pena, pensando em algo que não sabe o que é, talvez saudade, mas nunca é.

Depois do sono revigorante pós-almoço, levanta disposta à noite. É aí, quando se prepara para sair e curtir sua vida de perda, que causa mais sofrimento. Sua alegria, seu esquecimento de que foi perdida, produz uma dor inaudita, gritos mesmo, silenciosos e longos. Verdadeiros uivos, esta é a verdade, de dor. Neste momento quem perdeu considera impossível perder tantas vezes a mesma coisa, e perde finalmente a esperança do reencontro.

Até que a perda acorda cedo...

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