segunda-feira, janeiro 31, 2005

Tinto seco? Não, tinta seca

Eu pintei meu velho apartamento. Com a indispensável ajuda dos meus amigos elementos. Foi o fim de semana inteiro de pinceladas pra lá e pra cá e passa o rolo e passa massa corrida e volta segunda para mais uma demão na gigantesca sala. É aquela correria que todo mundo sabe como é, ainda mais com massa corrida. Não é massa.

Isso tudo acabou de ativar umas sinaspses aqui no meu cérebro dormente e eu me lembrei de um sonho que tive de anteontem pra ontem ou de ontem pra hoje. Antes eu vou contextualizar. Agora estou morando longe da cantina de vinhos da Pipa. Antes morava do lado; andei pensando nisso nos últimos dias. Também estava pintando o apartamento, o que cansa a alma. Daí o sonho, sem detalhes:

O dono da cantina de vinhos da Pipa fechou a cantina e foi trabalhar em uma casa de tintas. Eu fiquei muito chateado. Encontrei-o por acaso quando fui comprar tintas para pintar meu apartamento. Ele me explicou que fechou a cantina por que as pessoas não bebem vinho no verão, mas pintam casas o ano inteiro. O que me deixou mais chateado foi o que ele disse para seu companheiro de trabalho quando eu estava indo embora, imaginando que eu não poderia ouvir: "Eu não gosto desse cara aí, e ainda por cima ele fica dando em cima das minhas filhas, e elas também nem gostam dele". Fiquei de cara! Quer dizer que a simpatia dele era pura falsidade? E quem disse que eu dava em cima das filhas dele? É de uma só, não das duas, e bem de leve.

Ora ora ora!

Agora que a tinta está seca, eu topo um tinto seco. É só avisar.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Nada aquém

Nada aquém de nenhuma das minhas expectativas.

O que está abaixo das minhas expectativas, é normalmente tão diferente delas, que se torna algo além das minhas expectativas. Nunca há aquém, há sempre além. Para o alto e avante.

Meu curso de Psicologia é um ótimo exemplo. A Psicologia é completamente diferente do que eu pensava que era. A princípio, parecia que para pior. Olhando com olhos mais experimentados, percebo que a Psicologia está anos luz além.

Está no além mesmo esse curso. No além da imaginção. O que há de toscos não é fácil! Pedreiros toscos derrubam prédios; psicólogos toscos derrubam...

Estou com pressa, meu dia foi corrido. Minhas mãos estão com um cheiro insuportável de cloro. Passei a manhã limpando paredes e a tarde ouvindo aula de estatística. Não terminei de limpar as paredes nem terminaram as aulas de estatística.

Olê olá quando estou cansado escrevo sem parar.

Chega disso.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Ao sobrevivente, as palavras

Acordo olhos cansados de um pesadelo e descubro que estou cercado por pensamentos lutando uns contra os outros. Estou desolado com a visão de pedaços de palavras quebradas. A cada nova palavra destruída eu sinto uma aflição aguda e um esquecimento. Ficando tolo, perdendo...

Os pensamentos lutam e meu corpo é o palco, o alvo, o motivo e o objetivo da guerra. O "caminho do meio" faz frente ao "carpe diem" mal compreendido. O primeiro empunha as palavras de Buda e o "carpe diem" de hoje corre perdido sem a voz do seu sentido original. Uma cena triste, à qual se juntam a auto-flagelação e a culpa. Estou calando...

Os pensamentos, sem perceber, estão arrancando da minha mente a percepção da realidade - da realidade separada da minha mente - da realidade criada pela minha mente - da minha mente irrealizada na minha mente. Sem tempo, sem pessoa. Não entendo o porquê da guerra até que ouço o grito: "ao sobrevivente, as palavras". Estou caindo...

Então é isso... as idéias querem minha voz, minhas mãos segurando canetas. Querem expressão, mas estão me destruindo e destruindo a possibilidade de se juntarem coerentemente. Estou distorcendo...

Bem e mal. Forte e fraco. Ridículo. Destrutivo. Mais feios são os graus tentando desfazer os "opostos" por meio de xingamentos. Todas são idéias egocêntricas, inclusive as que falam de paz... Todas são idéias acumuladas durante anos, lutando pela dominação da minha mente. Cada uma delas tenta me convencer da sua superioridade, mostrar-me o correto, o melhor. O problema é que estou consciente. Estou desentendendo...

A luta se reflete na minha cabeça sendo alucinada, doendo muito enquanto tento compreender o que acontece. Eu me ajoelho abismado, eu me levanto dolorido. Nada faz sentido, foi-se a coerência para-aonde-não-sei. O mundo fica turvo, eu me confundo com o chão que piso, com o homem que pisa em cima da minha superfície branca e gelada, com o corpo que me respira e me devolve diferente... Geléia, gelatina, caído em nuvens. Cabeça, cabeça, caçada, cachaça, calado, descascado, des des des. Ajudem...

--- Ajudem!

Um pensamento corajoso salta da trincheira direita e vem falar comigo, ao meu socorro. Sussurra algo ao meu ouvido; o que? Depois me chama de General e se desespera:

--- General, o Sr. precisa acabar com esta guerra! Não vê? Está perdendo muitos pensamentos... Isso não pode ser bom --- e vai embora alarmado de volta para a trincheira direita. Sussurrou algo no meu ouvido...

São minhas crenças e decisões que estão sendo disputadas, e talvez nada sobreviva, e então serei um corpo sentado em uma de muitas cadeiras. Calado em uma posição de uma fila grande, olhando para uma porta que não sei a que leva. Chão não, gelatina não, pessoa, ato de vontade! Pessoa. Acudo...

Respiro fundo e encaro, em dor, o caos formado. Os pensamentos se tornaram mutantes, amálgamas deficientes e incoerentes, efeitos colaterais da guerra que agora entendo ser corriqueira nos cantos adormecidos do cérebro. O problema é que estou consciente, estou vendo a guerra diária que se esconde onde a luz tem medo...

Ato de vontade, eu grito o sussurro que a idéia da trincheira direita soprou:

--- A razão é vazia, o que importa é o prazer que acompanha a idéia.

De alguma forma me entendem... O silêncio e a paz se estabelecem. Ao menos até o próximo aprendizado...

Fecho olhos cansados e volto para o sonho antes do pesadelo. A guerra não acabou, ganhou um pensamento, um esperto pensamento que se aliou ao sentimento. Eu durmo empurrando a guerra para a escuridão.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Queéarte?

Estou com a pequena obsessão de tentar definir o que é arte. Besteira minha, claro. Eu poderia começar lendo livros especializados, mas prefiro minha opinião a dos outros. Sempre achei melhor pensar sobre um assunto e só depois ler o que escreveram a respeito dele.

O problema é que acabei entrando em contato, ainda que acidentalmente, com algum material. O livro "O que é literatura", da coleção primeiros passos, completou o que eu tinha visto no filme "O sorriso de Mona Lisa". Depois, tive algumas discussões, uma em grupo, outras duas em dupla.

Adivinha a que conclusões chegamos? Acertou a mocinha da platéia que respondeu "nenhuma".

Se arte fosse criar emoções, qualquer soco ou tiro seria arte. Se arte fosse o que o artista diz que é arte, vocês estariam lendo uma obra de arte. Se arte fosse o que os especialistas dizem que é arte, então teríamos que engolir muita baboseira. Se arte fosse comunicação, os jornais são arte. Se arte fosse estética, todo olho azul é arte. Se arte fosse uma representação re-imaginada do mundo, então qualquer palavra ou imagem de qualquer época seria arte. Se arte fosse descarregar emoções, xingar seria arte. Se arte fosse a representação de um tempo, de um estilo de vida, de um pensamento central de uma época, "é o tchan" seria arte. Se arte fosse o que é funcional, uma caneta (com tinta) seria arte.

Radical e exagerado o parágrafo acima. Alguém perspicaz perguntaria: "e se arte fosse a combinação de tudo isso e muito mais?" Aí eu quero ver alguém me mostrar peças artísticas que reúnam todas essas características. Não duvido que existam peças assim; mostrem-me.

Pior são os especialistas. Bah! Imagina se eles resolvem definir também o que é se alimentar!

Sei lá o que é arte... Se você sabe ou tem alguma opinião, coloque ali nos comentários, por favor

domingo, janeiro 23, 2005

6 Dardos

* Estou aqui no laboratório. Os hamsters olham para mim com uma cara estranha. Acho que eles sabem que conheço Jack, o Sobrevivente. Talvez queiram me perguntar sobre os feitos do grande hamster.

* Está quente a não poder mais. Estou suando absurdamente. Meu quarto está uma zona, e por isso estou longe dele.

* Não sei o que escrever, mas estou escrevendo porque vir até aqui só pra checar e-mail não vale a pena.

* Hoje eu vou ver Nina com a Nina. Legal, né?

* Na minha primeira disputa oficial de dardos na casa nova, já bati todos os recordes. Fiz o maior número de pontos (142), a maior média de pontos em 40 rodadas (mais ou menos 59 pontos por jogada) e, claro, o maior número de pontos em 40 rodadas (2351). Todos ficaram putos e pediram desculpas por terem zombado do meu nome de guerra, "Acerto Preciso". Os outros jogadores, "Ponta Grossa" e "Flecha Negra" ficaram bem, bem para trás. Esta casa é insana. Eu coube como uma luva.

* Que post "diário" sem graça!

sábado, janeiro 22, 2005

Desfez-se o QG da Z4E

Ontem deixei o QG da Zona dos Quatro Elementos (Z4E). Agora moro na REPÚBLICA DOS ASSECLAS DO BEBÊ DE ROSEMARY. É divertido aqui, já percebi. O melhor é que já conheço bem todo mundo. A casa é enorme, cheia de possibilidades, quartos e árvores, além de ter um terreno anexo que usamos como nosso.

Além do bebê de Rosemary, aqui na casa há o quartinho do Harry Potter, a pedra filosofal, o cuco louco, a pedra de turmalina, a sauna (que não é sauna), o cachorro chamado cavalo e o cachorro pra lá de feio. Esta insanidade taxonômica toda normalmente sou eu quem cria; entrar para um local já insano nesse grau me faz sentir bem.

Mas o papo hoje é sobre a Z4E...
Morei na Z4E durante três anos e meio. Muitas histórias, como as das quartas-feiras de porre no extinto X-Picanha, ou a vez em que eu e o Cabelo tomamos uma 51 inteira, para desespero dos nossos fígados. Foi morando lá que vivi a ilha e conheci as pessoas mais extraordinárias de todos os tempos, na UFSC, em POA, para a vida toda. Foi nas dependências da Z4E que mais amei e mais sofri.

Quanto aos moradores... somando eu, quatro pessoas figuraças. Jamal, o Elemento Terra, e sua profusão de músicas estapafúrdias. Cabelo, o Elemento Água, e sua divertidíssima busca por novidades. Vitiligo, o Elemento Fogo, meu irmão. E eu, o Elemento Ar. Vou sentir muita saudade do organismo que éramos. Um sabia do humor do outro apenas com um olhar de relance, e sabia exatamente que piada contar para conjurar as gargalhadas.

Vou sentir saudade desses caras. Muita mesmo, caraca! Lamentar eu não vou, pois jamais deixamos de fazer o que queríamos. Obrigado, molecada!

E é por isso tudo que não sou um simples assecla do bebê de Rosemary. Sou um ELEMENTO assecla do bebê de Rosemary. Agora preciso ir até a sauna pegar algumas coisas e levar para o quartinho do Harry Potter.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Três curtas

Desconfortos
Uma das coisas que mais me desconforta é saber que mesmo os sentimentos e as construções mais altruístas são apenas uma possibilidade para os humanos, não a regra, nem necessariamente o correto. Outra coisa que me desconforta é o que é feito com todas essas possibilidades e liberdade. Finalmente, desconforta-me sobremaneira o quanto muita, mas muita gente mesmo, ignora a escolha de decidir no que acreditar e, principalmente, a arbitrariedade de acreditar no que acredita.

Festival do Minuto
Eu tive uma idéia bem coerente para filmar para o festival do minuto. Fui burro o suficiente para contar para meio mundo. Se por acaso o filme aparecer por lá sem que eu o tenha produzido não vou poder reclamar e muito menos provar que a idéia foi minha. A merda já está feita. Pensando nisso, e sendo aparentemente mais burro e desapegado à minha idéia, vou anunciá-la aqui. Preciso de um favor, porém. Por ser possível alterar a data e a hora dos posts no sistema blogspot, preciso que alguma pessoa deixe um comentário, pois essa seria a única prova de que realmente publiquei este texto nesta época do ano. A idéia, que de repente não é boa:

Mostrar a influência de uma banda grande sobre outras por meio de uma metáfora. Um cd famoso da banda grande dando um concerto, ou uma palestra, para os cds das outras bandas. O cd da banda grande deve estar em uma plataforma, enquanto os cds das outras bandas assistem atentamente. O fundo sonoro é uma música do cd da banda grande. Pensei em uma tomada de câmera única, com a câmera “passeando” entre os cds influenciados, depois se afastando enquanto vira (mostrando a grande quantidade de “pessoas” na platéia), e continua se afastando até mostrar no topo o cd da banda grande sendo reverenciado.

Mudança
Finalmente, o dia final de mudança. Não tendo net na casa nova, deixo um grande abraço a um grande número de amigos meus com os quais só converso por MSN. Talvez fiquemos um tempão sem nos falarmos. Alguns de vocês moram longe demais para eu ver com uma freqüência decente. Abração mesmo. As outras atividades continuam normalmente, mas com maior espaço de tempo entre elas. Mudanças são sempre boas? Sei lá! Deixa rolar alguma coisa pra eu responder se essa é ou não. A Z4E, a república de onde estou saindo, merece um texto de despedida. E terá.

Fui, rumo ao novo lar.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Perdido no Paraíso

Parece que há algo errado comigo, mas não há. É que não sinto mais dor como antes. Eu caía muito triste e não caio mais. De vez em quando vem uma chateação, uma preocupação tola, mas passa tão rápido que quase não percebo. Tem só uma preocupação, uma chateação, que é presente, insistente e creio que invencível. Mesmo ela não tem me importunado como há tempos atrás. Ela serve apenas para me lembrar do que preciso galgar.

Eu lembro o modo como eu sofria desesperado e sozinho no meu quarto. Eu queria que o chão me tragasse, que eu nascesse de novo, ou qualquer outra alternativa destrutiva o suficiente para levar minha mente daqui rumo a um lugar melhor. Sofria por ser eu mesmo, por ser o mundo incompreensível, por ser sozinho, por serem as pessoas terríveis e por mais um milhão de coisas. Foram muitos anos de dor intermitente e muitos dias de sofrimento no limite do suportável. Quanto mais tijolos se coloca em um castelo, mais grandiosa se torna sua destruição. Era assim que eu explicava o fato de que meus aprendizados e experiências tornavam a próxima dor mais aguda.

É engraçado não sofrer como antes, especialmente por que os pensamentos que eu tinha àquela época ainda tenho hoje. O mundo continua um lugar terrível e as pessoas continuam egoístas, inclusive eu em algum grau. Talvez o que tenha mudado é a maneira de perceber os pensamentos e situações. Ou, sendo mais pessimista, talvez eu só esteja calejado demais para me sentir mal por situações ruins. Creio que a primeira opção é mais pertinente, mas que a segunda também está relacionada com meu estado atual. É como se minha mente estivesse permanentemente ligada em duas chaves básicas: o “foda-se” e o “vá em frente”.

Eu me encontrei nos meus escombros e me dei a mão para sempre no dia 15 de novembro do ano passado. Naquele dia eu percebi que já havia perdido muito. Perder é um passo grandioso para a liberdade; quando a dor passa, renasce-se mais inteiro. E foi perdido de tudo que me achei. Sem clichês, sem modismos, simplesmente eu comigo mesmo. É esse processo que vivo, o de crescer muito, muito mesmo, e o de cada vez mais querer mudar esse mundo que não vale nada.

Não é um imaginado Deus, ou um inventado desígnio, ou mesmo um caminho puro que me leva a querer evoluir e mudar. É tudo idéia, tudo relativo, e minha idéia é mudar. É apenas uma idéia e um sentimento agregado a ela, como gostar de uma caneta. É amar meu eu torto e esquisito cheio de manias e sonhos. É o que sou no mundo que estou; parto daqui.

Já caí e levantei tantas vezes... e mal posso imaginar como seria um tombo do local em que estou agora, tal é a diferença e estranheza do que sinto hoje. Só tenho a certeza de que seria um tombo monumental e que renascer desse tombo seria atingir um estado de paz volumoso, talvez inquebrável (quase dá vontade de cair). Estou alto, e com base firme.

Continuo perdido. Mas estar no paraíso não dói.


PS: pensei no título “Perdido no Paraíso” enquanto caminhava para a padaria e pensava na soma de ter milhões de amigos e nenhum amor. Pareceu perfeito para descrever estar feliz mesmo sem saber nada de nada. E mais, estar feliz mesmo achando a “vida sem sentido” e o “mundo cruel”. É poético e paradoxal, como eu gosto. Depois lembrei que há um quadrinho com esse nome, e agora estou curioso para ler. Não deve ser ruim um quadrinho adulto como o nome “Perdidos no Paraíso”. Aliás, adulto não é sinônimo de pornô, leitor específico safado.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Cadê as férias?

Alguém aí viu minhas férias?

Avise-a que a estou procurando. Da última vez que a vi ela estava nas minhas manhãs de sono bom. Agora não mais. Vou dar uma recompensa a quem achá-la e me devolver.

domingo, janeiro 16, 2005

O que muda em um minuto?

O que muda em um minuto?
O que muda, que faz tanto?

Serão estrelas explodindo e irradiando energia ou o ponteiro do relógio girando uma volta boba? Talvez seja o pensamento escrevendo um épico e reformulando o entendimento; ou então uma bola velha rolando escada abaixo...

O que muda em um minuto?
O que muda, que faz tanto?

sábado, janeiro 15, 2005

O muro dos afogados

Um dia eu vi o muro dos afogados. Era um lance deprimente. As pessoas ficavam se debatendo sem parar e, no fim, tudo que conquistavam era um afogamento cinematográfico. Era possível ouvir as pessoas dizerem que a vida é dura. É que é mesmo dura, saca?

Quero dizer, você vai vivendo esta vida como um vivo vivente qualquer, e de repente acontece um grandioso acidente de percurso que atira seu corpo para fora do carro e de um lado para o outro. Você vai batendo em tudo que está ao seu redor, e lá se vai um osso e outro e outro, e o crânio. Pô, o crânio é sacanagem! Mas bate, bate! Daí sua pele sai, vai dar uma volta pelo asfalto e se encosta em um muro de afogados qualquer. Como já não há mais pele, começa a dor diretamente na alma, que vai sendo dilacerada aos poucos, bem aos poucos. Sobra o que, caramba? Sobra o que? A impressão que dá é que a vida fez de propósito, como não ficar enfurecido com ela? Parece o ocaso, o fim mesmo, e então algo acontece!

Não se sabe de onde, nem por quê, mas algo acontece. Remendam sua alma de alguma maneira, com fita crepe mesmo, só para perseverar, entende? Ela não fica assim uma maravilha, mas, ei, é a sua alma e você nem pode pensar em se sentir frustrado. A pele volta ao seu corpo, liberta-se do muro dos afogados e corre. Parece até uma silhueta sua. Vem, coloca-se direitinho em sua posição original. Você até percebe que falta um pedacinho bem na sola do pé e que a cada passo vai sentir dor, só que está feliz mesmo assim, afinal, sua pele voltou. Pegam com uma pá seu cérebro e vão colocando dentro da sua cabeça. Ih, esquecem ali um ou outro neurônio sem importância, e aquela lembrança acaba se modificando... mas pode até ser para melhor, não há motivos para reclamar. Enfim, os ossos. Um a um são consertados com farinha e água. Está pronto. Quer dizer...

Você levanta ainda meio tonto, olha ao redor e vê que todos os seus queridos estão muito felizes com seu retorno. São eles que dão o toque final nessa operação de reconstrução. Passam uns pós em você, amarram seu cadarço e penteiam seu cabelo. Como novo! Você fica como novo, é maravilhoso. O acidente nunca é esquecido, claro, mas a felicidade de respirar novamente o ar humano é deliciosa! Aí algum amigo seu na melhor das intenções diz: “Agora você está pronto para outra”. Puxa, precisava ser tão otimista? Precisava lembrar da possibilidade de outro acidente? Ainda bem que você é forte e esquece essa idéia, consegue viver plenamente de novo.

Então você compra um carro novo, todo bonitão, depois de uma economia de anos. Coloca nele os apetrechos mais bacanas, cuida dele com amor e dedicação inatacáveis. Passeia com ele por todos os lugares; curte mesmo. Ganha confiança e começa a andar cada vez mais rápido, o prazer dominando em cada curva, em cada freada e aceleração. A vida é a mil por hora, afinal! Você se sente completo, inteiro, a pessoa mais especial de todos os tempos. E vai com seu carro cada vez mais rápido. É tudo realmente perfeito e mesmo assim a vida coloca alguma coisa na frente do caminho. Algo inesperado, inevitável, que não é em absoluto de sua responsabilidade. Você está feliz e de repente acontece um grandioso acidente de percurso que atira seu corpo para fora do carro e de um lado para o outro...

Eis a vida. Você cai e levanta sem parar. Não adianta querer que a coisa aconteça de outro modo.

Do que o texto tratava mesmo? Ah, claro, do muro, do muro. É que muro dos afogados é um lance meio estranho, certo? Se você parar para pensar direitinho, por que diabos acha que existiria um muro dos afogados? Não tem sentido, não. Era isso o que eu tinha a dizer: muro dos afogados não faz sentido. Por isso pare de se debater e ande para frente, criatura preguiçosa.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Onde morar

Vocês provavelmente não sabiam que vou me mudar. Agora sabem. Eu ia continuar morando onde estou, mas surgiram duas oportunidades bacanas. A infelicidade é que vou deixar de morar com o Victor, um gurizão show de bola que divide apartamento comigo há 4 anos.

Uma das oportunidades é morar com um grande amigo meu e mais outra pessoa desconhecida. Outra oportunidade é morar com dois grandes amigos meus e mais três colegas gente boas. Ambos os lugares são casas grande e bacanas, com o único incoveniente de não serem muito seguras... Boas oportunidades, como perceberam, à exceção da preocupação com os gatunos.

Ainda não sei o que decidir. Bom saber que uma opção é melhor do que a outra. De qualquer forma, perco lava-roupa, internet e vídeo-cassete. Vai ser barra até me acostumar novamente com a Idade da Pedra.

Estou com tanta sorte, que até posso ver outra oportunidade fantástica aparecendo. Só para aumentar a indecisão e forçar à escolha mais certa.

Como é bom ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar!

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Jack, o Sobrevivente

Jack foi atacado por um gato. Mas este é o fim da história...

Aqui conosco, em nosso apartamento na Trindade, mora o hamster Jack, cujo nome foi inspirado na marca "Jack Daniels". É um hamster velho e experiente, que mora sozinho e feliz em uma caixa grande, roubada por seu dono Cabelo de um local impronunciável.

Jack já foi pai de vários filhotes defeituosos, todos devorados pela própria mãe, em um ato de preservação de energia e de manutenção da salubridade da espécie. Acontece que a mãe dos filhotes de Jack era de uma espécie de hamster diferente da de Jack, o que talvez explique os defeitos dos pobres filhotes. O fato abalou nosso amigo peludo, mas não o derrotou.

Não muito tempo depois de perder os filhotes, Jack perdeu também sua esposa, que faleceu vítima de uma doença incurável. Livrou-se da depressão ingerindo doses cavalares de água e ração, engordando muito. Foram necessárias várias horas de corrida pelo chão da sala até que perdesse peso e continuasse sua vida de ermitão. Garante-se que hamsters da espécie de Jack vivem bem menos tempo do que o que Jack já viveu.

Marujo velho, Jack tem histórias fabulosas para contar, mas a mais incrível delas aconteceu hoje, dia 12/01/05, de madrugada. Jack foi atacado por um gato. O gato invade esporadicamente nosso apartamento ninguém sabe por onde, mas já foi notado que sua invasões coincidem com os dias em que esquecemos de fechar a porta da lavanderia. Felizmente, o gato nunca fez mais do que atacar nosso lixo da cozinha, obrigando-nos a pegar vassouras e limpar o estrago. Mas ontem foi diferente... Jack foi atacado...

Hoje pela manhã o irmão de Cabelo encontrou a caixa-casa de Jack no chão, tombada pela terrível luta. Sua cumbuca da comida e pote de água estavam intactos, mas virados de cabeça para baixo, e a serragem se espalhava em todas as direções pelo chão da sala. O irmão de Cabelo remexeu cuidadosamente os montes de serragem e descobriu que Jack não se encontrava em lugar algum. "Caralho, o gato levou o Jack" concluiu aflito. Pensou um milhão de besteiras antes de prosseguir.

A busca continou, incessante e tristemente. Jack, que incrível, foi encontrado vivo e sem nenhum ferimento, escondido em um canto do sofá. Tremia muito. No mais, estava como sempre, velho. O glorioso foi colocado de volta à sua remontada casa e o doutor posteriormente convidado recomendou que fossem feitas duas pontes de safena no velho lutador.

Não se sabe como Jack pôde ter sobrevivido a um ataque dessa magnitude. Lendas começam a ser contadas. Crianças afirmaram que viram um gato manco cruzar os limites do condomínio. Outros juram que assistiram quatro gatos sentados, como em assembléia, provavelmente planejando uma vingança contra o triunfante roedor. Há alguns que garantem que tudo não passa de uma farsa montada pelo piadista Jack.

Seja como for, Jack está vivo e bem velho. Um hamster inacreditavelmente incrível e cheio de histórias para contar. Um verdadeiro sobrevivente. Seus feitos serão lembrados e seu nome celebrado até que surja outro como ele.

Ele manda lembranças e deseja que todos tenham uma vida produtiva.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Mil lugares ao mesmo tempo

Eu fecho os olhos e me obrigo a sonhar.
Quero estar em mil lugares ao mesmo tempo,
Sentir o sol me olhando por todos os lados,
Banhando-me em muitas águas, quentes e frias.
Quero estar em mais do que aqui,
Talvez seja mais fácil encontrar alguma coisa.

Quero estar, na verdade, em um lugar só:
sob um par de olhos coloridos,
cantando na mente desta pessoa admirada de mim.
O único lugar em que não posso estar.
Esta pessoa que admiro tanto,
quero que ela admire a mim.

Quero estar em mil lugares ao mesmo tempo
Para suportar não estar neste único lugar que quero.
Estou apenas aqui, neste local extasiante chamado...
Chamado...

domingo, janeiro 09, 2005

Asteróide B612

Estou relendo o Pequeno Príncipe. Deve ser a décima vez. Ou mais. Continuo encontrando significados que não tinha percebido antes. Muito, muito bom!

A edição que me comprei de Natal se afirma a mais próxima da edição original, "a única com o autor em vida". Não sei, já não gostei de uma frase que foi traduzida como "Creio que ele se aproveitou de uma migração de pássaros selvagens para fugir". Gostava mais da "creio que aproveitou, para evadir-se, pássaros que migravam".

Isso é preocupação de pessoas grandes, no fim das contas...

Se você ainda não leu o livro está perdendo tempo. Como eu sou gente boa, eu vou passar um endereço eletrônico que contém o livro inteiro, e com as figuras. Agradeçam ao meu amigo Mario, pois ele que me passou o link.

Pequeno Príncipe

Divirtam-se.

sábado, janeiro 08, 2005

O começo do mundo

Já some o perfume das horas
Alegres, que desenharam dias de
Vitórias fáceis sobre os fatos.
Sobra a insossa situação
Poderosa, levando a alma da
Alegria para algo sem nome.

Vai-se o paraíso das belas
Mulheres, que trouxeram de longe
Amor aos olhos calados.
Fica o aviltante desespero
Intenso, degradando o sorriso
Confiante que havia no forte.

No fundo do poço um alçapão,
Cuidadosamente adentrado,
Revela que o fim da esperança
É o começo do mundo...

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Manhã de sol

Cheguei em Floripa recepcionado pelo sol. Coisa boa.

Estou cansado. Pegamos um trânsito hediondo ainda em sampa. Perdemos pelo menos umas duas horas.

O melhor da viagem foi a tentativa do co-motorista de colocar o filme "Matrix - Revolutions". Ora ficava som baixo, ora alto. A tela estava mal configurada, e só dava para ver metade dos personagens. Um wide screen sem wide screen... Não demorou para que alguns passageiros lhe dessem o singelo apelido de "corninho".

Arruma isso logo, corninho. Vamos, corninho, a gente quer ver o filme. hahahaha. Que foda! Pior que era o ônibus inteiro chamando o cara de corninho, não tinha o que fazer. Dali a pouco um passageiro mané grita:

-- Esclarece o filme aí, tá muito escurto. Esclarece aí.
-- É clareia, seu retardado.

Mais risadas. O corninho desistiu e ficamos sem filme.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Dia de ir pra ilha

Então é dia de ir pra ilha?
Hmmmmm

Quem queeer ir coooomigoooo põõõeee ooo deeeedoooo aaaaquiiii... queeee já vaaaiiii feeeechaaaaar...

Rumo ao lar, ou quase.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Asas

Neste momento, confrontando eu mesmo,
Tudo começa e termina.
As horas mortas ganham vida
Depois de um verso cantado.
O passado inteiro se reconstrói
Após meu verso cantado.

Neste momento, enfrentando o espelho,
Os mínimos se intensificam.
Posso ver além dos olhos
Os próprios limites de mim
Pedindo reparos. Eu anseio,
Só tenho um movimento:

Asas!

De volta ao mundo

Está chegando o dia de eu voltar para Florianópolis. Amanhã à noite entro no ônibus cansado e chego na chuva de sexta de manhã. Vou beber toda aquela água refrescante só por ser da ilha. Lá minha redenção é certa.

Espero encontrar o filme "Antes do Pôr-do-Sol" lá. Aqui em Guarulhos, que tem mais de 1 milhão de habitantes, não encontrei. Cidade vazia. Essa é a diferença de Guarulhos para Florianópolis. Na ilha tem o que eu quero.

Várias coisas para resolver... Terei minhas tardes. A princípio. Depois terei minhas manhãs. Finalmente terei meu dia inteiro. As noites sempre serão minhas.

Hoje é dia de ver meus dois primos. Show de bola! Saudade daqueles moleques.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Dias contados para a Z4E - O teste de 2005

Este ano está me testando...

Fiquei sabendo que dois dos três caras que moram comigo vão sair do apartamento. Daí decorrem duas possibilidades. Ou eu me mudo para um apartamento de dois quartos com o Vitiligo, ou eu e o Vitiligo convidamos alguém para morar conosco. De qualquer forma, perderemos por tempo indeterminado alguns confortos: televisão, vídeo-cassete, internet à cabo, TV à cabo, fogão, mesa, sofá, microondas e máquina de lavar roupa. Perder máquina de lavar roupa é algo especialmente terrível...

Além disso, perderemos dois ótimos companheiros de apartamento e desfiguraremos nossa querida Zona dos Quatro Elementos (Z4E). Dividir apartamento por três anos e meio tornam as pessoas amigas. Nós nos damos bem, não brigamos, ajudamos uns aos outros, e etc etc etc. Vai ser barra. Somos obrigados a resolver tudo até o fim de janeiro.

Pode vir, 2005. Você quer me testar?
Então é melhor você fazer mais do que me fazer sentir solitário e me deixar sem casa definida!
No final, eu vou vencer.

domingo, janeiro 02, 2005

Mostrando a garganta

Escrever este post requereu coragem. É para me cobrarem mesmo.

Este ano eu quero escrever um livro. Publicar também. Sim, vou me tornar mais um aspirante sonhador em busca da publicação.

Tenho um pouco de medo. Digitar algumas palavras e pressionar o botão "publish post" é infinitamente mais fácil do que pensar em uma bela estória que tenha algo a dizer. Além de existirem milhões de livros escritos, abrangendo incontáveis assuntos, há muitos aspirantes neste novo mundo de comunicação fácil. Basta clicar nos blogs por aí para perceber quantas pessoas estão interessadas em se tornar escritoras. É assustador. Todos crêem em sua capacidade e recebem apoio dos amigos, que juram que eles escrevem muito bem. É. É.

Eu acredito no meu potencial e meus amigos juram que eu escrevo muito bem. hehehe.

"Vamos nós!!"
Isso realmente é digno dos impossíveis.

Florianopaulistano

Estar em São Paulo me faz ter saudade de Florianópolis. Estar em floripa me faz ter saudade de passear por sampa.

Eu sou um florianopaulistano, não tem jeito.

É por isso que gosto tanto de Porto Alegre. Se sampa tivesse um filho com Floripa, nasceria Porto Alegre. O segundo filho seria Curitiba. Cidades maravilhosas.

A casa nova dos meus pais não é enorme, mas é grande demais para se ficar sozinho. Da sala para o quarto, do quarto para a sala, ninguém para conversar. Oh saco!

sábado, janeiro 01, 2005

ONE YEAR TO RULE THEM ALL

Eu me formo este ano. Depois disso, decido se fico em Florianópolis ou se vou para São Paulo, Porto Alegre, Curitiba ou Brasília, nesta ordem de preferência. Decisão importante, pois vai guiar alguns próximos anos da minha vida.

Vai ser um bom ano. Estou bastante empolgado com meus projetos (falo sobre eles outro dia). Consigo imaginar barreiras, mas nenhuma difícil de ser contornada. Neste ano vou deixar a humildade, ou covardia?, de lado e confessar que tenho potencial para tudo.

Rei de Um

A vida tem mil coisas
Confusas e incontroláveis;
Um caos magnético
De fatos belos ou sujos.
Às vezes parecemos peões...
Aceitamos cabisbaixos
As viradas insensatas
Do que julgávamos certo.
Isso é falso:
O descontrole é ilusório
Como o controle.

Das mil coisas da vida
Eu governo uma:
A que molda todas.
Meu castelo sou eu,
Sou meu rei.
Assim faço o mundo,
Pois o mundo passa por mim
Antes de se tornar vivo.
Rei de Um:
O que importa mais
E constrói a vida.