Perdido no Paraíso
Parece que há algo errado comigo, mas não há. É que não sinto mais dor como antes. Eu caía muito triste e não caio mais. De vez em quando vem uma chateação, uma preocupação tola, mas passa tão rápido que quase não percebo. Tem só uma preocupação, uma chateação, que é presente, insistente e creio que invencível. Mesmo ela não tem me importunado como há tempos atrás. Ela serve apenas para me lembrar do que preciso galgar.
Eu lembro o modo como eu sofria desesperado e sozinho no meu quarto. Eu queria que o chão me tragasse, que eu nascesse de novo, ou qualquer outra alternativa destrutiva o suficiente para levar minha mente daqui rumo a um lugar melhor. Sofria por ser eu mesmo, por ser o mundo incompreensível, por ser sozinho, por serem as pessoas terríveis e por mais um milhão de coisas. Foram muitos anos de dor intermitente e muitos dias de sofrimento no limite do suportável. Quanto mais tijolos se coloca em um castelo, mais grandiosa se torna sua destruição. Era assim que eu explicava o fato de que meus aprendizados e experiências tornavam a próxima dor mais aguda.
É engraçado não sofrer como antes, especialmente por que os pensamentos que eu tinha àquela época ainda tenho hoje. O mundo continua um lugar terrível e as pessoas continuam egoístas, inclusive eu em algum grau. Talvez o que tenha mudado é a maneira de perceber os pensamentos e situações. Ou, sendo mais pessimista, talvez eu só esteja calejado demais para me sentir mal por situações ruins. Creio que a primeira opção é mais pertinente, mas que a segunda também está relacionada com meu estado atual. É como se minha mente estivesse permanentemente ligada em duas chaves básicas: o “foda-se” e o “vá em frente”.
Eu me encontrei nos meus escombros e me dei a mão para sempre no dia 15 de novembro do ano passado. Naquele dia eu percebi que já havia perdido muito. Perder é um passo grandioso para a liberdade; quando a dor passa, renasce-se mais inteiro. E foi perdido de tudo que me achei. Sem clichês, sem modismos, simplesmente eu comigo mesmo. É esse processo que vivo, o de crescer muito, muito mesmo, e o de cada vez mais querer mudar esse mundo que não vale nada.
Não é um imaginado Deus, ou um inventado desígnio, ou mesmo um caminho puro que me leva a querer evoluir e mudar. É tudo idéia, tudo relativo, e minha idéia é mudar. É apenas uma idéia e um sentimento agregado a ela, como gostar de uma caneta. É amar meu eu torto e esquisito cheio de manias e sonhos. É o que sou no mundo que estou; parto daqui.
Já caí e levantei tantas vezes... e mal posso imaginar como seria um tombo do local em que estou agora, tal é a diferença e estranheza do que sinto hoje. Só tenho a certeza de que seria um tombo monumental e que renascer desse tombo seria atingir um estado de paz volumoso, talvez inquebrável (quase dá vontade de cair). Estou alto, e com base firme.
Continuo perdido. Mas estar no paraíso não dói.
PS: pensei no título “Perdido no Paraíso” enquanto caminhava para a padaria e pensava na soma de ter milhões de amigos e nenhum amor. Pareceu perfeito para descrever estar feliz mesmo sem saber nada de nada. E mais, estar feliz mesmo achando a “vida sem sentido” e o “mundo cruel”. É poético e paradoxal, como eu gosto. Depois lembrei que há um quadrinho com esse nome, e agora estou curioso para ler. Não deve ser ruim um quadrinho adulto como o nome “Perdidos no Paraíso”. Aliás, adulto não é sinônimo de pornô, leitor específico safado.


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