dois ETERNOS
Há algum tempo atrás eu concluí que existem duas modalidades de coisas que são para sempre. Exato: dois ETERNOS.
Um deles é pura imaginação. É aquele que seria o eterno de verdade, aquilo que estaria para sempre no universo, ou até aquilo que existia e continuaria existindo após o fim do universo. Esse eterno provavelmente não existe, é algum tipo de ficção para fazer as crianças irem para a cama cedo.
O outro eterno é o eterno em relação ao indivíduo. Funciona simples assim: tudo que continuar existindo depois da minha morte é eterno para mim. É uma perspectiva interessante, que torna meu próprio corpo eterno. Ele existirá algum tempo além do que-sejá-lá-o-que-é-a-vida me deixar.
Os Eternos
Muita gente, então, é eterna para mim. Gostaria de saber que assim o são todos os que amo em qualquer gradação de amor. Repousaria suave tendo certeza disso.
Falando um pouco da morte
Ontem, com a cabeça encostada no banco do ônibus, eu via a estrada, e parecia que era ela a passar por mim. E pensei na morte. Na coisa de fechar os olhos para nunca mais abrir, naquilo que, para mim, não é um estado e, portanto, não suscita arrependimento nem idéias para cumprir.
Olhando a estrada, fingi que eu não existia e tentei imaginar o mundo. Foi impossível. Eu estava presente em cada percepção. Eu existia em cada pensamento, pois o meu pensamento jamais deixaria a si mesmo de lado. Ele me quer vivo.
Minha eternidade?
Uma das maiores dúvidas que tenho é se vale ou não vale a pena deixar um legado no meu nome. É uma discussão para além da produção. A produção é válida: construir algo decente é, no mínimo dos mínimos, mostrar empatia. Minha dúvida é se vale a pena estampar o nome em alguma produção, especialmente uma que fale sobre o modo como o mundo é para mim.
A pergunta que me faço é: dos seis bilhões de pessoas, poderia uma, além de mim, estar verdadeiramente interessada no que tenho a dizer sobre a existência? Tantos já fizeram isso, tantos pensam que seu pensamento é melhor do que o dos outros. Quantos poderiam aprender algo comigo? E, principalmente, o que meu nome, ou eu-em-si, significo para esse mundo enorme?
Não encontro respostas, as que meu egocentrismo natural me fornecem não são suficientes.
Talvez eu queria apenas ser eterno para outras pessoas. E ser, de alguma forma, eterno para mim mesmo.

