A Calada da Existência
Pode-se dizer que tenho sido um bom rapaz. Tenho tomado banho todos os dias, escovado os dentes, trabalhado bastante e me divertido não mais do que o suficiente (diversão, afinal, é pecado). Tenho, mais do que tudo, estudado. Estudar, para mim, é trabalhar.
Quando se trabalha muito, a cabeça não fica vazia e a vida passa sem que você perceba. Um dia come o outro e já se está na virada do mês. Não é assim que gosto.
Gosto da existência barulhenta, gritando lenta todos os dias. Gosto de tentar desvendar o doloroso mistério de cada segundo, de sentir a pressão da vida esmagando meus pensamentos. Gosto de sentir meus pensamentos empurrando as dúvidas com respostas criativas; adoro a sensação de vencer a falta de sentido.
Trabalhando, não tenho nada disso. A vida é fácil demais.
Prefiro a dor dos sentidos e sensações à dor estriada dos pensamentos ordenados.


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